



A criação desta actividade surge a partir dos relatos da minha colega de turma Sónia Abrantes, do contexto socio-cultural de Lichinga.
A forma de viver o quotidiano no Norte de Moçambique, tão diferente do nosso é uma inspiração para a imaginação de quem vive habituado ao previsível. O enorme contraste onde falta praticamente tudo em comparação com o a nossa sociedade, onde tudo está à mão foi determinante para a ideia de construir uma história infantil para os meninos da Escola D. Luís Gonzaga anexa à Escola Primária Completa de Sanjala.
Devo agradecer toda a colaboração prestada pela Sónia Abrantes e o incentivo do Professor Amílcar Martins (Doutor em Ciências da Educação - Didáctica das Artes, pela Universidade de Montreal) e nosso Docente na UC "Animação e Expressões Artísticas" no curso de Educação - 3º ano, da Universidade Aberta.
A importância do Conto Infantil no universo das crianças, surgiu como necessidade, mas também como motivo para enriquecer a identidade desta população. A riqueza de elementos do seu quotidiano permitirá às crianças uma identificação com a história e com a realidade.
MODELO DE RENALD LEGENDRE:
Onde se desenvolverá a Actividade?
- O MEIO :
- Em Moçambique, na província de Niassa, em Lichinga. Num contexto sócio-educativo, na Escola D. Luís Gonzaga anexa à Escola Primária Completa de Sanjala, na Biblioteca e no Museu Etnográfico.
Para quem/Com quem se destina a experiência?
- SUJEITO:
- Alunos da 2ª classe no ano lectivo de 2011.
com idades compreendidas entre os 6-11 anos.
- Educadores, Pais e Comunidade: Biblioteca, Museu Etnográfico num projecto transversal a todas as idades e profissões.
Que linguagens serão mobilizadas na experiência?
- OBJECTO:
- Histórias a produzir pelos alunos, conjugando o interesse pelo Conto Infantil com a Interdisciplinaridade:
Português - Educação Visual – Educação Física
Quem e como dinamiza a experiência?
- O AGENTE-ANIMADOR :
- Sónia Abrantes e Professoras da Escola D. Luís Gonzaga anexa à Escola Primária Completa de Sanjala, em Lichinga, no período de 1 de Junho de 2011 a 1 de Junho de 2012.
CONTEXTO SOCIAL - caracterização da comunidade:Inicialmente, a escola foi construída para os filhos dos trabalhadores da quinta agrícola “machamba”.
"São adultos que já foram pedintes de rua e que foram convidados pela responsável pelo Projecto SEIVA, Irmã Ferreira a participarem no projecto da “machamba”, actualmente são trabalhadores rurais.
A escola foi construída para crianças pobres, mas começaram a aceitar crianças com condições económicas mais favoráveis por terem dinheiro para manter a escola e os seus pais estão muito interessados no ensino de qualidade que esta lhes proporciona."
Os dados relatados pela Sónia Abrantes são essências para compreender a vida quotidiana das crianças, da escola e das suas famílias:
-“Os alunos são muito diferentes, diria até de classes diferentes...
-Sobre a roupa, a situação é a mesma, grande contraste... Na escola o uniforme é camisa azul claro e calças azuis escuras, actualmente já quase todos têm uniforme, incluindo os mais pobres, fornecidos pela escola, em Abril/2011.
-A diferença dos pobres para os ricos, quanto à roupa, é que os ricos saem de casa com o uniforme, os pobres vestem o uniforme apenas na escola, onde fica guardado, pois se levarem para casa utilizam-no como roupa diária e sujam com muita facilidade;
-Estes meninos andam, na sua maioria com roupas rotas, sem qualquer estética, combinação de cores, tamanho, etc. Poucos andam descalços, mas os sapatos estão rotos e muito gastos.
-A deslocação para a escola, e já reparei que para outras escolas também acontece um pouco, é feita em parte de carro escolar ou de um particular que não se importa de dar boleia. Muitas crianças vão a pé, e descalças também.
-Os jogos durante o dia na escola resumem-se ao tradicional jogo da apanhada, macaca, etc. Se sair da escola, poderei dizer que os meninos ricos jogam “game”, como eles dizem, e meninos pobres fazem os seus próprios brinquedos, como carrinhos de arame, bolas improvisadas, papagaios de saco plástico, peças de flores.
-Há uma grande misturam, e nenhuma das partes se escandaliza com a forma de estar do outro, rico ou pobre.”
>“O universo é uma harmonia de contrários” - Pitágoras
CONTEXTO SOCIAL versus OBJECTIVOS:
- Identificar costumes e aspectos da vida quotidiana desta comunidade;
- Promover e reforçar a sua identidade cultural;
- Promover a leitura através de uma actividade que envolve toda a comunidade;
- Aumentar a auto-estima das crianças e das suas famílias;
- Criar a oportunidade de escreverem e lerem histórias que fazem parte da sua realidade;
- Incrementar o gosto pela leitura, levando a população a frequentar a Biblioteca;
- Incutir o gosto pela preservação cultural levando a família a visitar o Museu Etnográfico;
- Promover a interdisciplinaridade, conjugando o Programa de Português (expressão
oral e escrita, interpretação do conto) com o de Educação Visual (técnicas de pintura, técnicas de recorte e colagem, trabalho colectivo de pintura) e o de Educação Física (danças típicas de Moçambique);
- Lançar oportunidades de criação e de imaginação a partir:
- das roupas (capulanas) - ver foto
- dos dialetos (jaua e macua)
- dos rostos pintados das mulheres macuas - ver foto
- Promover a multiculturalidade das diferentes etnias da região do norte de Moçambique.
PROPOSTA DE ACTIVIDADE - 2ª Classe de Lichinga:
Os alunos da 2ª classe de 2011 irão desenvolver contos, onde serão retratados os aspectos que consideram mais importantes do seu quotidiano. Existem muitos temas por explorar, desde as profissões que já foram objecto de estudo na escola, aos brinquedos que constróem, o teatro de fantoches que fizeram para a Festa do Dia Mundial da Criança, de 1 de Junho de 2011, as danças tradicionais, as caras pintadas das mulheres macuas, as roupas (capulanas)que têm diversas utilidades, as expressões no dialeto macua ou jaua:
- editanga - porta
- ichitela - árvore
- macono - mão
- ichala - dedo
- nhuc - lápis
"Perdoem-me se escrevo mal o jaua, mas como não encontro nenhum escrito neste dialeto, escrevo como se pronuncia" - Sónia Abrantes.
TEORIA - Objectivos Pedagógicos:
Desenvolver em conjunto com a missão humanitária do Projecto
Seiva, em Lichinga, uma actividade que seja significativa para a comunidade, adaptada ao seu contexto e aos seus meios, proporcionando a conjugação
das variáveis da pedagogia de situação.
A pedagoga Gisèle Barret,identificou a pedagogia da situação com particular destaque para o saber-ser do educador. Um educador que consegue comunicar a partir de situações reais, de elementos imprevistos que surgem, envolvendo todos os participantes como actores no espaço-cena da situação pedagógica. (Martins, 2002: 117).
O educador num contexto de diversas dificuldades dever ser capaz de ultrapassá-las, socorrendo-se da sua imaginação, pedindo a colaboração dos alunos, envolvendo-os na situação. Deve ser considerada a necessidade de adaptar a actividade aos acontecimentos e às necessidades que surgem.
Segundo uma síntese elaborada por Souza,as atitudes do pedagogo devem guiar-se por algumas características (Martins, 2002: 118):
O subjectivo – considerar que cada criança tem o seu sentir individual; cada ser atribui um significado de maneira diferente;
Deve ser dada a oportunidade a cada aluno de se exprimir sobre o que considera mais importante para a construção do conto já que todos revelaram interesse pelos livros. “Quando os livros de contos foram colocados na mesa, houve sempre alunos a manusear os livros” (Sónia Abrantes,2011) – ver foto
O vivido – a aprendizagem adquirida deve ser valorizada, colocando-a ao serviço das novas aprendizagens;
As acções anteriores devem ser lembradas e utilizadas para a construção do conto, por exemplo:as profissões que conheceram na excursão (foto: cozinheiras da escola)
A polissemia – conjugar os diversos sentidos, incentivando a Imaginação da criança e a sua capacidade de criar;
O lúdico – a capacidade de jogar, de trocar o eu pelo outro;a aprendizagem multicultural; utilização de elementos do seu quotidiano como os jogos "os games" e os brinquedos feitos pelas crianças (fotos – meninos com carros de arame e menino com bola de pano);
A globalidade – a conjugação de vários elementos significativos para as crianças desta região. Os familiares podem ajudar à construção do conto, envolvendo-se ao contar histórias antigas que ouviram dos seus antepassados (provavelmente ainda não foram escritas)- atribuindo valor às suas raízes culturais e ao conto tradicional.
O processo – um processo adequado ao tempo de realização da actividade que leve à concretização dos objectivos, onde sejam considerados os meios, visando a economia do processo;
A acção – ver para fazer e fazer para ver, pretende-se levar a criança à acção e à reflexão do que faz e como o faz, num processo metacognitivo em que reconhece o desenvolvimento da sua própria aprendizagem.
O colectivo – a interacção entre todos é fundamental; valorizar as populações onde se incluem filhos de trabalhadores rurais, filhos de bancários, professores, administrativos públicos, e muitas outras profissões.
A criatividade – Incentivar a Imaginação dos alunos,recorrendo às experiências do Dia Mundial da Criança (2011) com a dança, os fantoches, a representação teatral das profissões, etc.
O aqui e agora - o pedagogo, nestas circunstâncias deve adaptar o trabalho aos conteúdos locais e aos acontecimentos mais expressivos para o colectivo, promovendo a interculturalidade.
A situação – o pedagogo deve aproveitar situações que surjam como mola desencadeadora de criatividade. Situações problemáticas devem ser vistas como uma oportunidade para explorar determinados temas, tentando desdramatizar. Não devem ser excluídos os problemas sociais como doença/morte.
(Relato da Sónia Abrantes: ao verificar que um aluno ficou perturbado quando leu a palavra pai:
“Quando vejo em que palavra a criança parou, verifico que foi em "pai". Era aquele aluno cujo pai faleceu há menos de dois anos, vítima de SIDA”.)
O QUE VAMOS FAZER E COMO?
A Criação dos livros dividem-se em diferentes fases:
1 - Escolha de elementos - a introduzir na história que sejam significativos para as crianças, pedindo-lhes para fazerem uma lista do que gostariam de utilizar na história;
2 - Visita ao Museu Etnográfico e à Biblioteca para recolha de elementos a considerar;
3 - Trazer para a aula elementos - para desenharem à vista: a bola de trapos, o carro de arame, fantoches, etc
4 - Preparação de materiais:
.Papéis que sirvam para pintar, para colagens
.Restos de Tecidos (de preferência capulanas)
.Cartões para as capas, podem ser diferentes
.Tintas
.Pincéis
.Cola
.Tesouras
.Linha
.Agulhas
Nota: a colagem de tecidos é interessante, pode servir para colocar nos espaços dos vestidos ou das camas, ou de acordo com a imaginação das crianças;
5 - A Encadernação:
- os papéis onde se desenham/pintam/colam as histórias serão cozidos no final para prender umas folhas às outras;
- as capas podem apresentar pinturas sobre cartões reciclados onde consta o título da história e que serão coladas no final às folhas de papel previamente cozidas.
6 - A Divulgação: fase fundamental para os alunos verem reconhecido o seu trabalho e o seu alcance.
Data da divulgação: daqui a 1 ano, no Dia Mundial da Criança de 2012, no local que melhor consiga acolher alunos e familiares, na Escola ou na Biblioteca.
NOTA FINAL: Esta actividade inserida na área de projecto pode ser adaptada às necessidades do meio.
Referências Bibliográficas:
MARTINS, Amílcar (coordenador), 2002. Didáctica das Expressões. Lisboa: Universidade Aberta;
Parabéns pela iniciativa! Fico feliz ao saber que o voluntariado está a dar mais frutos do que o previsto. Espero que o projeto siga para a frente. Vamos falando!
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